domingo, 4 de junho de 2017

Filosofia e Fé Cristã

Colin Brown é um teólogo de renome internacional com obras traduzidas para o francês, português, romeno, italiano, coreano e chinês. Professor de teologia no Fuller Theological Seminary, nos EUA, também ensina cristologia contemporânea na mesma instituição. O seu livro “Filosofia e Fé Cristã”, da editora Vida Nova, é um verdadeiro achado para quem deseja compreender a visão filosófica que o mundo teve em diversos períodos da História da Humanidade. Mas, melhor que isso, quais marcas que cada filosofia deixou no Cristianismo e como a Igreja Cristã reagiu a essas filosofias. O escritor conseguiu discutir o pensamento de cerca de 450 filósofos dentro do panorama de mil anos.

O interessado pela obra vai começar a leitura descobrindo as raízes do pensamento medieval com Agostinho e a igreja primitiva, passando pela filosofia grega, chegando à metafísica. Depois de passar por Anselmo da Cantuária com seu argumento ontológico, o leitor vai conhecer o pensamento de Tomás de Aquino e chegar aos pensadores da Reforma Protestante. Racionalismo, empirismo, deísmo, iluminismo e ceticismo também são avaliados.

A abordagem de Schleiermcher sobre Deus e a vida, Hegel e seu idealismo, Kierkegaard, e pensamentos de filósofos ateístas e agnósticos não foram esquecidos pelo autor do livro. Teologia liberal, positivismo lógico, existencialismo e o pensamento de Bonhoeffer também são contemplados. Outros autores mais recentes também estão inseridos na obra.

O livro é bastante denso com informações muito valiosas para quem precisa entender melhor o porquê de cada pensamento e como ele afeta a vida dos cristãos. O autor mostra as bases de cada ideologia e como o Cristianismo convive e/ou rebate seu conteúdo e ainda mostra a importância de termos nossa filosofia baseada na Bíblia, não sendo ela tão maldita como muitos cristãos a consideram. A filosofia é importante para a teologia e não se pode deixá-la de lado, pois é com as muitas formas de pensar que podemos ter a certeza que a nossa fé não está alicerçada em vãs filosofias, mas na Verdade, que é Cristo.


Obra com excelente conteúdo, porém, complexo. Não é um livro que se lê rapidamente, mas pode servir como base para estudar aos poucos cada filosofia. Por exemplo, você pode conhecer o pensamento de Tomás de Aquino, compreender suas falhas, seus acertos e entender como esse homem influenciou a sua época. É um livro de estudo, que serve como norteador para o cristão que quer crescer no conhecimento sobre o que é, como ocorre e como influencia a filosofia.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente

Hercule Poirot está diante do caso mais fascinante de sua história. O improvável homicídio dentro de um lotado vagão de trem sagrou a obra “Assassinato no Expresso do Oriente” como uma das mais emblemáticas da escritora inglesa Agatha Christie. Publicada pela primeira vez em 1934, a história começa num rigoroso inverno em Alepo, na Síria, onde vários turistas embarcavam em trens aos seus respectivos destinos. Em uma época em que poucas pessoas viajam a turismo, o detetive Hercule Poirot estranhou a quantidade de pessoas naquele expresso.

Havia gente de todas as classes sociais e de várias nacionalidades, incluindo um misterioso homem que, ao saber quem era o belga investigador, fez uma proposta para que o detetive pudesse descobrir quem estava querendo matá-lo. No entanto, Poirot não aceitou a proposta, principalmente por achar o tipo do homem um tanto perigoso.

No vagão Istambul-Calais havia passageiros como uma princesa russa, velha americana, governanta inglesa, mulheres francesas, coronel inglês e jovens americanos que se misturavam de alguma forma no meio daquele vagão. Em certo momento, o Expresso do Oriente para por causa da intensidade da neve e, com a cena melancólica do frio, vem a descoberta: o homem misterioso encontrava-se morto em seu próprio quarto. Vários golpes acertaram o passageiro que estava completamente dopado no momento do crime.

Só depois do homicídio, Poirot descobre quem de fato era o misterioso homem: responsável pelo sequestro de uma criança americana de cinco anos, filha de uma famosa artista. Antes de receber o valor exigido, ele matou a menina, mas conseguiu escapar da Justiça. Por causa da tragédia, a mãe da garotinha, que estava grávida, não aguentou de tristeza e acabou morrendo, antes mesmo de dar à luz. Seu marido não suportou a situação e cometeu suicídio. Com a tragédia de repercussão nacional, uma governanta foi acusada de ajudar o sequestrador no crime, mas acabou se sentindo injustiçada e também cometeu suicídio. O responsável por toda essa tragédia passou a rodar o mundo com nome falso, gastando o dinheiro conquistado com os inúmeros raptos realizados por ele. De alguma forma, quem o matou no trem descobriu sua verdadeira identidade.

Roupão vermelho com figuras de dragões, homem baixinho com voz de mulher, a janela do quarto da vítima aberta, punhal ensanguentado na mala de passageira, isqueiro de charutos, um estranho invasor no quarto da velha americana, um botão de uniforme... Detalhes que não passaram despercebidos pelo famoso detetive compõem todo o enredo da investigação. Nesse momento, todos são culpados ou inocentes? Nada passa sem que seja observado pela perspicácia de Hercule Poirot, cuja fama no mundo todo já garantiria o sucesso no que talvez nenhum outro investigador pudesse conquistar: desvendar o mistério que envolvia o assassinato no Expresso do Oriente.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Livro reúne 28 contos de Dostoievski, alguns deles inéditos no Brasil

Por Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo*
Se a obra do escritor francês Honoré Balzac consiste em um mosaico de pequenos mundos ao retratar as diversas camadas da sociedade, o russo Fiodor Dostoievski (1821-1881) mirou a intimidade e desvendou como nenhum outro a alma humana. “Dostoievski é tão grande”, escreveu o filósofo Nikolai Berdiaev, “que por si só basta para justificar a existência do povo russo.” Romancista-filósofo por excelência, ele talhou uma literatura que trata dos grandes problemas humanos, tornando-se o símbolo de um monumento à consciência. Antecipando Kafka e também tecendo a teia de toda uma literatura que passou por Machado de Assis e chegou a Albert Camus e Samuel Beckett, Dostoievski influenciou autores de todos os idiomas com obras como Crime e Castigo, O Idiota e Os Irmãos Karamazov. E não foi apenas nos romances que o russo disseminou imagens que projetam a desumanização do homem – também os textos curtos despontam como um autêntico laboratório de criação.

É o que se nota no volume Contos Reunidos, lançado agora pela Editora 34. Trata-se de uma seleção de 28 contos, desde o primeiro que escreveu (Como É Perigoso Entregar-se a Sonhos de Vaidade, publicado em 1846 e até então inédito no Brasil) a O Grande Inquisidor, que saiu em 1880, um ano antes de sua morte. Com organização e apresentação de Fátima Bianchi, professora da USP, o livro oferece uma ampla definição de “conto”, pois inclui também breves novelas, narrativas autônomas dentro de romances e peças jornalísticas com viés ficcional. 

“Encontramos em sua obra uma realidade social e humana extremamente complexa, marcada pela instabilidade, pela ruptura de tradições, pela destruição de antigos valores morais e espirituais e a inexistência de valores alternativos”, observa Fátima Bianchi, no texto de apresentação. “Segundo o estudioso russo G. K. Schénnikov, ele percebeu que ‘não eram apenas as relações entre as pessoas, as formas de prática social, os interesses que mudavam, mas também a noção do homem sobre si mesmo e o seu lugar no mundo’. Daí sobressair-se em sua obra uma caracterização da realidade tão aparentada do ‘caos’.”

Dostoievski foi diretamente influenciado pelas agruras pessoais e especialmente pelas novas relações sociais introduzidas pelo capitalismo que marcaram a Europa e a Rússia, naquele século 19. Fiodor Mikhailovitch Dostoievski nasceu em um pequeno hospital de Moscou onde seu pai, homem carrancudo, trabalhava como médico. A morte da mãe por tuberculose, 16 anos depois, provocou o início de uma difícil relação com o pai. O sensível Fiodor sofreu com essa convivência, que se consumou com um drama familiar: o assassinato do pai, por dois de seus servos, quando o escritor tinha 18 anos.

“Dostoievski desde o início procurou expressar um ponto de vista original sobre o homem, ao estabelecer para si a tarefa de decifrar os enigmas de sua alma”, comenta Fátima. “Ele anunciou várias vezes que o objetivo fundamental da suas aspirações era o estudo do homem na sua essência profunda. Numa carta a Mikhail, seu irmão e confidente, escrita aos 18 anos de idade, ele define a orientação básica de suas futuras buscas criativas: ‘O homem é um enigma. É preciso decifrá-lo, e ainda que passe a vida toda para decifrá-lo, não diga que perdeu tempo; eu me dedico a esse enigma, já que quero ser um homem’.”

Essas tragédias pessoais, de toda forma, levaram o jovem Fiodor a se apegar ainda mais à religião. Mas Dostoievski jamais demonstrou, por exemplo, a ironia revelada por Tolstoi pelos temas cristãos – o elemento mais importante da literatura de Dostoievski é a liberdade espiritual e a possibilidade de escolha entre Deus e o Mal. A culpa, no entanto, sempre esteve presente no caráter do escritor, ciente de que o homem frequentemente fracassa ao fazer tal escolha.

“Incontestavelmente, a compaixão profunda para com o sofrimento e a humilhação tornaram Dostoievski um dos maiores escritores humanistas da literatura mundial”, afirma Fátima. “Há uma sensação de dor presente em toda a sua obra, desde a primeira até a última, até nas circunstâncias mais inusitadas, como um sentimento dominante, que surge de um mal generalizado existente na sociedade, na natureza humana e em todo o universo.”

Desde sua estreia na literatura com Gente Pobre, em 1846, Dostoievski trabalhou com os aspectos inaceitáveis do homem: os maléficos. Na primeira fase da carreira, havia, como um constante pano de fundo, o socialismo utópico, de inspiração cristã, que se expressa na paixão lírica pelos mais pobres. “Sem maiores cerimônias, Dostoievski passa do humor e da farsa ao grotesco e ao sublime”, afirma o também pesquisador Samuel Titan Jr., no texto da orelha do livro. “Volta e meia, o resultado é desnorteante, tanto pelo engenho verbal como pelo empenho encarniçado em chegar ao cerne humano e histórico das situações e personagens em cena.”

Decisivo como laboratório literário, o conjunto de contos revela a compaixão profunda para com o sofrimento e a humilhação que tornou Dostoievski um dos maiores escritores humanistas da literatura mundial. Contos Reunidos traz cinco textos totalmente inéditos no Brasil: Como É Perigoso Entregar-se a Sonhos de Vaidade (1846), Pequenos Quadros (Durante uma Viagem) (1874), Plano Para uma Novela de Acusação da Vida Contemporânea (1877), O Tritão (1878) e Domovoi, conto inacabado que faria parte de Histórias de um Homem Vivido, mas Dostoievski não o publicou em vida – o texto foi encontrado após sua morte.

CONTOS REUNIDOS
Autor: Fiodor Dostoievski
Organização e apresentação: Fátima Bianchi
Tradução: Priscila Marques e outros
Editora: 34 (552 págs., R$ 89)

TRECHO
“Agora, estamos entrando no vagão. Os russos da intelligentsia, quando estão em público e em grande número, sempre são objeto de curiosidade para um observador interessado em aprender, ainda mais numa viagem. Nos vagões, as pessoas dificilmente conversam entre si; nesse sentido, são particularmente característicos os primeiros momentos da viagem. Todos estão como que indispostos em relação aos outros, todos se sentem desconfortáveis; trocam olhares de uma curiosidade desconfiada e invariavelmente misturada com hostilidade, ao mesmo tempo, fingem não notar e nem querer notar a existência uns dos outros.

Nos setores do trem onde ficam os membros da intelligentsia, os primeiros instantes de localização do assento e início da viagem são instantes de verdadeiro sofrimento, impossíveis em qualquer outro lugar”." (De ‘Pequenos Quadros (Durante uma Viagem)’)

Extraído de http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,livro-reune-28-contos-de-dostoievski-alguns-deles-ineditos-no-brasil,70001739048