segunda-feira, 8 de abril de 2013

Nova antologia do conto russo



Fazia tempo que ansiava adquirir a Nova Antologia do Conto Russo, organizada por Bruno Barretto Gomide, até que acabei ganhando do meu noivo e grande foi a alegria! Na verdade, meu interesse por este livro da Editora 34 surgiu pelo fato de querer ler o conto Polzunkov, de Dostoiévski, já que estou assídua na leitura dos livros deste autor e não encontrava esta obra em nenhuma editora brasileira. No entanto, enorme foi a boa surpresa que recebi ao iniciar a leitura do livro.

            O livro é uma compilação de vários contos de autores russos escritos entre 1792 e 1998. Comecei lendo o primeiro texto, o famoso conto de Karamzin, Pobre Liza, escrito em 1792 e citado por Dostoiévski em seu primeiro livro, Gente Pobre. Foi muito interessante o impacto de ler o conto citado pelo meu autor russo favorito em seu primeiro livro, mas que eu desconhecia o conteúdo. O texto é belíssimo e um dos contos mais famosos na Rússia, o que me deixou muito motivada a ler os demais textos da coletânea. 

            Em seguida, a narrativa Viagem a Arzrum (1836), apresentou-me ao seu autor, Aleksandr Púchkin, cujas obras ainda são desconhecidas para mim, mas é um dos escritores russos mais famosos do século XIX. A carruagem, de Nikolai Gógol, também de 1836, me deixou ainda mais interessada pelo autor, já que havia lido cinco contos dele, também reunidos em um livro pela Editora 34, intitulado O capote e outras histórias. Como sempre, Gógol me faz sorrir e admirar suas obras tanto pela fantasmagoria, quanto pelo seu jeito meio anedótico de escrever, não se enquadrando, de fato, em nenhuma escola literária de sua época. Um dos autores russos mais intrigantes, tendo seus contos O capote, O diário de um louco e O nariz grande repercussão mundial desde que foram publicados.

            O livro também apresentou-me a Odóievski, com A sílfide (1837), e Liérmontov, com Taman (1840). Seguidamente, meu russo favorito, Dostoiévski, aparece com seu Polzunkov (1848), mais uma vez prendendo-me ao seu estilo, deleitando-me na primeira fase de sua carreira como escritor, antes de sua prisão na Sibéria, antes da sua viuvez, antes da perda de seu filho. Narrativa que lembra o Dostoiévski de Gente Pobre (publicado em 1846, seu primeiro romance, também publicado no Brasil pela Editora 34). Logo depois, Turguêniev emociona-me mais uma vez, desta feita com Relíquia viva (1852), apresentando seu estilo peculiar de detalhar as emoções humanas, relatar as dores físicas do personagem. É uma forma tão detalhista de redigir que o leitor consegue enxergar nitidamente as expressões gestuais de cada personagem deste conto. Turguêniev, fabuloso como sempre.

            Gárchin. Pretendo não esquecer este nome. Penso: como demorei tanto a conhecê-lo? Não sabia nem ao menos a existência do conto Quatro dias (1877), que foi o texto que mais mexeu com meu imaginário, com minhas emoções e mais me impactou de toda esta compilação. Essa extraordinária narrativa foi escrita por um dos russos menos conhecidos, contudo, mais excepcionais daquele século. O autor viveu apenas 33 conturbados anos, que culminou em seu suicídio. Entre diversas crises nervosas, participou da guerra russo-turca, de 1877, ano de publicação deste conto. Quatro dias é marcante pelo seu aspecto grotesco, realista, apresentando conteúdo que estimula a reflexão sobre a moralidade humana. Tendo a guerra como pano de fundo, o escritor não poupou detalhes do sórdido cenário em que se encontrava o personagem.

            Fui apresentada também a Leskov, cuja narrativa (Viagem com um niilista, 1882) instigou-me a investigar mais sobre o autor. Também conheci Schedrin, com Contos do major Gorbiliov (1884), Korolienko, com O sonho de Makar (1885), Kuprin, com O inquérito (1894), e Tchekhov, com Ariadne (1895). Outro nome novo para mim e que não pretendo esquecer é o de Fiódor Sologub. Coincidentemente, o autor tem o primeiro nome igual ao do meu favorito Doistoiévski, Fiódor! Luz e sombras (1896) narra a história de um inocente garoto que se vê completamente preso ao conteúdo de um livro aparentemente inocente, mas que acaba interferindo profundamente no cotidiano de sua vida. Contaminada também pelas páginas daquele simples livreto, sua mãe inutilmente tenta livrar seu filho do vício desencadeado pela simples observação de algumas folhas de papel contendo imagens de sombras projetadas. Escrito magistralmente, o leitor logo observa a forma sutil e inteligente adotada pelo autor, que conduz todo o texto, corrompendo a inocência dos personagens e direcionando-os a se sujeitarem aos seus impulsos outrora bem administrados.

            Pela primeira vez li Andrêiev, através do seu O abismo (1902), mas confesso que não gostei. Achei a história muito pesada para mim. Não gosto deste tipo de conteúdo. Qual a graça de ler um conto sobre um estupro coletivo? Faço minha as palavras de Tolstói a respeito do autor: “ele tenta me assustar, mas eu não me assusto”. Desprezo esse tipo de narrativa. Finalmente chegamos em Tolstói. Desejava há muito tempo lê-lo, mas só o conheci agora, com seu Depois do baile (1903). Achei interessante seu estilo, o conteúdo crítico a respeito da sociedade da época em meio a um tipo de romance menos romântico. Mais realista que seus antecessores, estamos agora entrando no século XX. Pretendo ler mais Tolstói, um dos mais famosos russos daquele período.

            No ano em que morria Dostoiévski, nascia Aviértchenko, em 1881. Com estilo muito mais moderno que os escritores anteriores desta compilação, seu texto lembra muito as histórias curtas e hilárias publicadas nos jornais do início do século XX. Não é a toa que seu conteúdo humorístico o tornou um dos autores mais populares da Rússia. Seu Um dia humano (1910), publicado agora neste livro, revela alguns aspectos deste autor que em seu auge profissional foi editor de dois jornais. Um ano depois desse conto, é publicado Vendetta (1911), de Górki. Outro escritor russo que ansiava conhecer, e ao lê-lo pela primeira vez não me decepcionei. Vendetta, que significa “vingança” em italiano, é um daqueles contos que te faz refletir durante um bom tempo a respeito da moralidade humana, do certo e errado, da fragilidade das situações, do impacto das emoções, das atitudes no calor do momento.

            No mesmo ano de Vendetta, são publicados Dia de Páscoa (1911), de Khliébnikov e Tempo do cão (1911), de Nadiédja Téffi, única mulher escritora do primeiro quarto do século XX publicada nesta compilação. Logo depois temos Pasternak, com Cartas de Tula (1918), e Zamiátin, com A caverna (1920), mostrando o estilo russo daquela época, bem diferente dos autores do século XIX. Em 1924, Grin publica O caça-ratos e, em 1925, é a vez de Insolação, de Búnin. Este último me deixou instigada a conhecer melhor seu autor. Insolação tem toques realistas e modernistas, seu conteúdo remete à reflexão do prazer alcançado, dos desejos não saciados, da dor sentimental. O “eu” entra em confronto com o surpreendente outro “eu”. Naquele mesmo ano, 1925, são publicados A crise, de Zóschenko, e O vadio Eduard, de Katáiev.

            Em 1928, surge Liompa, de Iuri Oliécha, considerado um dos melhores escritores russos da década de 1920. Depois, Platónov, com Makar, o duvidador (1929). Em seguida, temos Guy de Maupassant (1932), de Isaac Bábel. Como o Robinson foi criado (1933), de Ilf e Petrov, é colocado logo após Bábel. Estes dois foram satiristas extremamente famosos da época da União Soviética. O presente conto tem um humor peculiar, que ao mesmo tempo critica a burocracia da vida soviética. Em 1936, Vladímir Nabókov publica Primavera em Fialta, um belíssimo conto, quase um monólogo muito bem escrito e sensível. É mais um autor russo que conheci neste livro e que pretendo ler mais, especialmente seus romances já publicados no Brasil.

            Bastante modernista, o texto de Kharms, Conexão (1937), com tom filosófico deixou-me interessada por seus escritos, ele escreve de forma simples e direta. Não sei quantos ou se há outros textos dele publicados no Brasil, mas procurarei saber. Logo depois deste conto, aparecem Neve (1943), de Pustóvski, Às avessas (1952), de Riémizov e Xerez (1958), de Chalámov. Este último faz alusão ao escritor russo Óssip Mandelstam (1891-1938), e o título do conto é em homenagem a um dos mais famosos poemas sem título deste escritor. Chukchin aparece nesta antologia com seu Dá-lhe coração! (1973), que muito me agradou pela forma escrita e pela história. 

Não é a toa que Tatiana Tolstaia seja descendente de um dos grandes escritores russos, Lev Tolstói. Seu conto Noite (1988), considerado um dos melhores da autora, expõe por que ela é uma das artistas russas contemporâneas mais requisitadas e admiradas da atualidade. A dama dos cachorros (1990), de Liudmila Petruchévskaia, encerra a participação feminina neste livro, que teve apenas três escritoras contempladas. Em seguida temos Na rua e em casa (1995), de Dovlátov, e o grande encerramento com Um mês em Dachau (1998), de Sorókin, um dos seus mais polêmicos contos.

São no total 40 contos muito bem escolhidos que mostram a força da prosa russa. É uma oportunidade para os interessados pela literatura daquela nação conhecerem diversos grandes autores que fizeram e têm feito história na Rússia, e alguns deles, dada sua importância, que fazem parte da história da literatura mundial. Muito bem publicado, compilado e produzido, a Nova Antologia do Conto Russo vem para fazer história. O homenageado desta obra foi professor doutor Boris Schnaiderman, o principal comentador, tradutor e divulgador da literatura russa no Brasil. O livro é realmente uma obra valiosíssima, vale a pena adquirir, é imprescindível a presença deste livro nas bibliotecas particulares dos admiradores da literatura russa.

Título: Nova Antologia do Conto Russo 
Autor: Bruno Barretto Gomide (org.)
Gênero: Literatura russa
Editora: Editora 34
Páginas: 648p.





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