segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Em 'A Palavra Algo', Luci Collin usa sua poesia do caos e desassossego

Afirma Roland Barthes: “Quando eu leio, acomodo: não só o cristalino dos meus olhos, mas também o de meu intelecto, para captar o bom nível de significação (aquele que me convém)”. Barthes conclui que “é somente ao olhar o infinito que o olho normal não tem necessidade de acomodar-se”. Poderíamos comparar esse olho que contempla o infinito com o olho do poeta, que não se submete à acomodação. O olho do poeta seria como aquele descrito em A Palavra Algo (Iluminuras, 2016), o mais recente livro de poesia de Luci Collin, ou seja, o olho que “imagina entre migalha e galáxia” e que chega ao “deslumbramento daquele que inaugura adornos”.

De fato, o poeta não é um acomodado. Segundo D. H. Lawrence, o poeta precisa do caos, diferentemente do homem comum que “não pode viver no caos o homem precisa embrulhar a si mesmo numa visão, fazer uma casa com uma forma visível e com estabilidade, com fixidez”. Por isso, prossegue Lawrence, “o homem constrói um edifício assombroso a partir de si, erguido entre ele e o caos selvagem, tornando-se, gradualmente, empalidecido e asfixiado sob o tecido do guarda-sol. Então vem um poeta, o inimigo das convenções, e faz um rasgão no guarda-sol; e vejam! O lampejo de caos é agora uma visão”.

A poesia de Luci, como se lê em seu último livro, “é metal precioso é metal nobre agarrado aos detalhes e ao insubmisso”. Portanto, com sua palavra metal, ela vai rasgando os guarda-sóis que nos protegem do caos e com seus versos “comete danças estapafúrdias” e assim “inaugura a temporada do pasmo”.

Luci deseja o caos que, no seu livro, irrompe não só das imagens de seus versos, mas também da miscelânea de poemas díspares que o compõe: poemas que vão da metalinguagem a citações e à mera cópia de frases banais. Poesia, lembra Luci em um de seus versos, talvez seja, de todos os discursos, “o mais movediço o mais plástico”.

Nos poemas que versam sobre o fazer poético da autora, lê-se que “o discurso é para ser longo e nítido/ mas a tinta borra hesita/ ela mesma tem lapsos/e talvez falsifique as cenas em seu arredamento de pávida lembrança”; ou “as palavras que se alcançam/ são o esquecimento das figuras/ que descem degraus na pressa/ do inédito”.

O poema Grande Fome “anuncia” paródias anteriores e posteriores que se insinuam, mas não se concretizam - “essa maquiagem máscara e as paródias que insinua/ espantam as cirandas já escassas/ e a pressa rega uma semente/ sifilítica” -, dando um calço nas expectativas do leitor. Luci não parodia explicitamente, mas cita diversos poetas como Fernando Pessoa, Mallarmé, Casimiro de Abreu. Nessas citações, a poeta parece ter encontrado “a amenidade do velho e a agitação de um menino ao repetir gestos que duplicam o pouso”. E Luci duplica o voo desses poetas. Em A Palavra Algo, Autopsicografia, de Fernando Pessoa, se transforma em Deveras e assim inicia: “O poeta finge/ e enquanto isso/ cigarras estouram/ pontes caem/ azaleias claudicam”.

Luci se vale também de frases banais, provavelmente lidas em placas espalhadas pela cidade, e com elas constrói o poema Orçamento Sem Compromisso, no melhor exemplo de “escrita não criativa” contemporânea: “Compro ouro/ Cobrem-se botões/ Compro e vendo cabelo/ X-calabresa/ Porção e executivo/ Piso escorregadio”. A poeta não “se incomoda” em não ser criativa, parece saber que, como se lê no poema Imortalha, “todos os termos foram inventados”.

A Palavra Algo é um livro ágil, variado e humorado. Revela uma poeta em busca do caos, mas, ao mesmo tempo, temerosa do caos; por isso se mantém fiel a formas e técnicas, pois, como diz D. H. Lawrence, “o desejo do caos é a respiração de sua poesia. O medo do caos está no desfile de formas e técnicas”.

A PALAVRA ALGO
Autor: Luci Collin
Editora: Iluminuras (112 págs., R$ 35)

Extraído de: http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,em-a-palavra-algo-luci-collin-usa-sua-poesia-do-caos-e-desassossego,70001644373 
 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Editoras apostam em clubes de leitura e até em vaquinhas após o fim das compras do governo

Por Bruno Molinero, repórter da Folha de São Paulo*

Era uma vez um grupo de empresas e uma galinha dos ovos de ouro que permitia a todas ganharem muito dinheiro. Mas um belo dia a ave mágica desaparece, e muitos dos que viviam às suas custas começam a passar fome e a ter de se virar para sobreviver.
Se a história das editoras brasileiras especializadas em obras para crianças fosse um conto de fadas, ele seria mais ou menos desse jeito. Só que, no lugar da galinha dourada, estariam o governo brasileiro e as suas generosas compras de livros. As aquisições podiam chegar a milhares de exemplares de cada título e render milhões de reais todos os anos às empresas.
Podiam. Isso porque, principalmente a partir de 2015, as compras governamentais para abastecer bibliotecas e escolas minguaram nas esferas federal, estadual e municipal —até quase desaparecerem com a crise econômica em que o país mergulhou.
“Foi um desmonte no nosso mercado”, diz Daniela Padilha, editora da Jujuba, que desde 2010 lançou 36 livros (na imagem acima, ela aparece em foto na sede da empresa, em São Paulo).
Para se ter uma ideia do tombo, de acordo com dados da CBL (Câmara Brasileira do Livro) e do Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros), 2014 produziu 37,3 milhões de exemplares de literatura infantil; em 2015, esse número caiu para 12,5 milhões.
“Mas há uma parte boa. As editoras agora precisam diversificar as suas atuações para fechar as contas e continuar publicando”, afirma Padilha. A Jujuba espera lançar cinco títulos em 2017.
As companhias que não fecharam as portas começaram a apostar ainda mais na adoção de seus livros por escolas e clubes de leitura, em cursos pagos com autores da casa e até em vaquinhas na internet. Tudo para continuar vivo num mercado com faturamento de R$ 1,56 bilhão em 2016 —sendo que 23% correspondem a obras infantojuvenis ou educacionais, segundo a pesquisa “Painel das Vendas de Livros no Brasil”, do instituto Nielsen e do Snel, divulgada neste mês.

*Extraído de: http://eraoutravez.blogfolha.uol.com.br/2017/01/23/editoras-apostam-em-clubes-de-leitura-e-ate-em-vaquinhas-apos-o-fim-das-compras-do-governo/

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Livros nas Praças registra cerca de vinte mil leitores em 2016

Foto do blog "Leitores Depressivos"
O projeto Livros nas Praças, patrocinado com exclusividade por Lojas Americanas e Americanas.com, encerrou as atividades da temporada 2016 com 19.653 visitantes e totalizou 1.633 empréstimos de livros, sendo 1.598 devoluções, o que significa que somente 2,14% dos livros não foram devolvidos. Nas 29 semanas, de abril a dezembro, a biblioteca sobre rodas esteve presente em 14 comunidades e vilas olímpicas do Rio de Janeiro, com estreia no Instituto Benjamin Constant, e ainda em dois municípios de São Paulo, circulando pela Bienal Internacional do Livro.

Nas visitas, além dos empréstimos e disponibilidade para leitura no ônibus, os visitantes puderam acompanhar apresentações de dança, teatro e bate-papos com escritores e autores. O ônibus-biblioteca vermelho oferece um acervo de 2 mil títulos infantis, juvenis e adultos. Entre os títulos mais procurados pelas crianças e adolescentes estão: “Percy Jackson”, “O Diário de um Banana”, “Harry Potter” e “Maria Passarinho”. Já os adultos preferem “A Vida Além da Vida” e “Águas para Elefantes”. Os frequentadores do Livros nas Praças são em sua maioria jovens, entre 8 e 16 anos. E, deste universo, as meninas com idade entre 13 a 15 anos representam o maior número de leitores.  

O ônibus vermelho conta também com 60 livros de ilustrações em braile para crianças, livros em fonte ampliada para pessoas com baixa visão, audiobooks para deficientes visuais e 30 livros em braile para adultos. Também possui cadeira de transbordo, própria para cadeirantes e idosos com dificuldades de subir a escada de acesso. O projeto Livros nas Praças é uma das ações de responsabilidade social da Lojas Americanas e da Americanas.com.

Fonte:Texto da assessoria de comunicação das Lojas Americanas.