terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O menosprezo pela literatura

Só quem entende a importância da literatura é realmente quem a lê. Uma pessoa me disse que literatura era perda de tempo e, por isso, só lia livros técnicos. Quanta ignorância! É pela literatura que enxergamos diferentes formas de ver a vida, diferentes formas de expressão da língua e conhecemos até mesmo histórias verdadeiras (muitas vezes contadas nas entrelinhas). Pela literatura conhecemos como são e como eram as cidades, a vida cotidiana, a cultura e a geografia dos lugares, conseguimos desenvolver nossa comunicação, nossos pensamentos e nossa escrita.

Os livros técnicos não chegam nem aos pés do que a literatura pode desenvolver na mente humana. Não se pode comparar, cada um tem sua finalidade. Literatura é arte, livro técnico não. Mas, o que esperar de um país que mal sabe o que é Arte? Onde seus habitantes confundem pichação com pintura e pornografia com música? Já fui à Rússia e voltei algumas vezes, mas isso foi em séculos passados. Conheci a cultura dos anos de 1800 daquela nação através de Dostoiévski, meu escritor favorito – que por sinal foi analisado anos mais tarde não poucas vezes pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud. “Memórias do Subsolo”, uma das obras mais interessantes de Dostoiévski – literatura pura – é, por vezes, associado aos estudos de psicanálise de Freud sobre o inconsciente humano.

Saindo da Rússia, não poderia deixar de lembrar a profundidade dos poemas de Manoel de Barros. “Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro/Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas)/Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil/Fiquei emocionado/Sou fraco para elogios”. O que são as insignificâncias da vida? Palavras tão singelas, poemas que brincam com as expressões, com os pensamentos, que esbanjam reflexões, sinceridades e bom-humor. Literatura que ajuda na formação do leitor, poemas que tocam a alma, que oferecem outra visão de mundo.

Não menos importantes temos os romances policiais que aguçam a criatividade, o raciocínio lógico e a imaginação. Sherlock Homes e Hercule Poirot são personagens que dificilmente serão esquecidos pelos amantes do gênero literário. Raphael Montes, escritor brasileiro dessa nova geração, está despontando com romances policiais. Com apenas 26 anos, seu segundo romance, “Dias Perfeitos”, já foi publicado em 14 países incluindo Estados Unidos, Inglaterra, Espanha, Holanda, Itália e França. Essa obra, assim como “Suicidas”, teve os direitos vendidos para adaptação para o cinema. A editora brasileira “Oito e Meio” recebeu durante campanha realizada pela internet, em menos de trinta dias, 600 originais de jovens escritores para serem publicados. A nova geração de estudantes está gradativamente lendo mais e amando mais a literatura.

Não dá para ignorar a importância disso. Qualquer decisão que tente diminuir o valor dessa arte é caminhar ao contrário das necessidades dos próprios leitores brasileiros, especialmente a juventude. É menosprezar o trabalho dos jovens escritores e se expor como um ser totalmente ignorante a respeito do assunto. Embora ainda existam aqueles que acreditam que os livros técnicos são mais importantes que a literatura, esse pensamento distorcido está gradativamente mudando. É uma pena saber que tem tanta gente ainda com uma visão tão pífia quanto à literatura e mais triste ainda é perceber que tipo de (des)educação tem sido oferecida aos brasileiros. Precisamos “reformar”, sim, mas que seja para melhor.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Duas narrativas fantásticas

Publicada pela primeira vez na revista mensal “Diário de um escritor”, em 1876, “A Dócil” relata o conturbado casamento entre uma jovem de 16 anos e o dono de casa de penhores na faixa de seus 40 anos. Considerada uma pobre moça, necessitada de tudo, a “dócil” mostra que toda doçura tem seu lado cruel e, ao mesmo tempo, inocente. Sem saber o real motivo de seu suicídio, o marido se torna refém de seus questionamentos sobre o que a levou à morte e acaba tendo algumas conclusões pela lembrança do olhar dela em determinadas conversas.

A vontade de saber se a esposa o amava o não, se o desprezava ou não, se tudo era uma mentira ou não. Ele estava lá, parado, na frente do corpo da mulher que ele adorava quase que com veneração. Aquela mulher amável que chegou a apontar um revólver para sua cabeça enquanto dormia. Por quê? Havia um por quê? Gestos, olhares, situações, tudo o que há de mais corriqueiro Dostoiévski leva em consideração na história de seus personagens. Detalhes dos pensamentos, das dúvidas, o contraditório humano e suas necessidades mais íntimas.

Já em “O Sonho de um homem ridículo”, publicado pela primeira vez em 1877, o escritor russo expõe a decadência da Humanidade. O homem que se considera ridículo por ele mesmo e pela sociedade teve um sonho em que depois da morte iria para um lugar onde encontrou pessoas que amavam por amar, viviam por viver e eram felizes. Até que algum fator externo, que o sonhador considera ele próprio, corrompe esses seres imaculados que passam a desejar o melhor para si próprios e não mais para o próximo. A sociedade decadente envolta pelo egoísmo, egocentrismo e pela falta de amor é tema desta narrativa.

As duas novelas expõem um escritor mais maduro, seguro do comportamento sempre contraditório de seus personagens, que brinca com maestria com a personalidade humana, como o grande mestre da psicanálise ficcional.

Título: Duas narrativas fantásticas: A Dócil e o Sonho de um homem ridículo
Autor: Fiódor Dostoiévski
Gênero: Ficção russa
Editora: Editora 34
Páginas: 128

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Livro refaz trajetória do compositor Shostakovich sob o jugo de Stalin

Por André de Leonês – ESTADÃO*

Três momentos extremamente delicados da vida do compositor russo Dmitri Shostakovich (1906-1975), nos quais ele manca “cautelosamente de uma ansiedade para outra”, servem como espinha dorsal para o estupendo O Ruído do Tempo, romance do premiado autor britânico Julian Barnes. Aqui e ali, o leitor se depara com o protagonista à mercê do moedor de carne humana que era o Estado Soviético, obrigado a silenciar ou a falar em prejuízo de outros, colocando-os em situação semelhante ou pior, ou - o que pode ser o mais terrível - a simplesmente compactuar.

O primeiro dos tais momentos se dá em plena década de 1930, quando Stalin tratava de perseguir, prender, torturar e assassinar todos aqueles que julgava “subversivos” - palavra tão genérica que, no contexto de uma máquina totalitária, consegue abarcar qualquer um que desagrade ao ditador ou seja por ele antagonizado. O “crime” de Shostakovich foi compor Lady Macbeth de Mtsensk, ópera baseada na novela de Nikolai Leskov e que obteve enorme sucesso, pelo menos até que Stalin foi assisti-la e não gostou. É a senha para que a imprensa oficial (única que havia) crucifique o compositor, atacando sua obra como “apolítica e confusa”, capaz de despertar “o gosto pervertido dos burgueses com uma música inquieta e neurótica”.

Chamado a prestar contas às autoridades, logo percebe que a farsa é ainda maior: menos que ele, estão empenhados em trucidar seu protetor, o marechal Tukhachevsky, a quem deve implicar num suposto (e falso) complô para assassinar Stalin. No entanto, antes que Shostakovich possa ser levado a “colaborar”, o moedor de carne humana se ocupa da pessoa que o interroga, vitimado por uma intriga similar. A ironia da situação é desesperadora.

No segundo momento, a pedido do próprio Stalin, ele viaja a Nova York com uma comitiva a fim de comparecer a um certo Congresso Cultural e Científico para a Paz Mundial. O tempo dos expurgos já passou, bem como a Segunda Guerra Mundial, mas o clima ainda é sufocante. “A paz tinha voltado, e, portanto, o mundo estava outra vez de cabeça para baixo”, escreve Barnes. Um exemplo: no momento em que Stalin o intima a viajar como “representante cultural” e na condição de maior compositor russo, sua música estava de novo proibida na União Soviética.

Por fim, na terceira e última parte do romance, já sob o governo de Nikita Kruchev, as coisas mudam um pouco, mas não se tornam menos perigosas: “Antes, havia morte; agora, havia vida. Antes, os homens borravam as calças; agora, podiam discordar. Antes, havia ordens; agora, havia sugestões. Então as Conversas com o Poder se tornaram, sem que ele se desse conta, mais perigosas para a alma. Antes, tinham testado a extensão da sua coragem; agora, testavam a extensão da covardia”. Assim, o mais impressionante é que a humilhação final não venha por meio de avisos, censuras, interrogatórios ou ameaças, mas com uma nomeação: engolido e mastigado pela engrenagem, Shostakovich se vê obrigado a aceitar o cargo de presidente da União de Compositores da Federação Russa, o que implica sua filiação ao Partido, coisa de que sempre se escusou.

“E agora, finalmente, depois que o grande terror havia passado, vieram em busca de sua alma”: com mais essa ironia dolorosíssima, a capitulação derradeira, o “suicídio moral” que faz com que Shostakovich prescinda do suicídio físico, Barnes coroa uma obra magistral sobre a devastação anímica causada desde sempre, e até hoje, pela opressão político-ideológica. Visto dessa forma, e tendo em perspectiva os dias atuais, O Ruído do Tempo ganha ainda mais corpo e relevância. O divórcio entre a arte e a verdade é o sintoma da doença não só do artista, mas também do povo que ele integra e há que se tomar cuidado para que o ruído do título não seja o daquele moedor de carne humana, que persegue, oprime e silencia.

TRECHO
“A arte pertence a todos e a ninguém. A arte pertence a todos os tempos e a nenhum tempo. A arte pertence aos que criam e aos que desfrutam. A arte não pertence ao Povo e ao Partido, assim como nunca pertenceu à aristocracia e aos patronos. A arte é o sussurro da história, ouvido acima do ruído do tempo. A arte não existe em benefício da arte; existe em benefício do povo. Mas qual povo, e quem o define? Sempre pensara que a própria arte era antiaristocrática. Compunha, como os difamadores afirmavam, para uma elite burguesa cosmopolita? Não. Escrevia, como os difamadores desejavam, para o mineiro de Donbass, cansado de trabalhar e precisando de um estímulo? Não. Compunha música para todos e para ninguém. Compunha para aqueles que melhor apreciavam a música que escrevia, independentemente da origem social".

Título: O Ruído do Tempo
Autor: Julian Barnes
Gênero: Romance
Editora: Rocco
Páginas: 176


*Extraído de: http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,livro-refaz-trajetoria-do-compositor-shostakovich-sob-o-jugo-de-stalin,70001661526

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Os elefantes não esquecem

Hercule Poirot, instigado por uma famosa escritora de romance policial, Ariadne Oliver, desvenda o mistério por trás de uma tragédia que aconteceu em família e chocou a cidade. Cerca de 13 anos se passaram e, oficialmente, a polícia deu o caso por e encerrado concluindo duplo suicídio. Um casal apaixonado teria realmente feito pacto de morte?

A senhora Oliver vai em busca de “elefantes”, já que eles “nunca esquecem”. Pessoas nunca esquecem, guardam em suas memórias vestígios de histórias, mesmo que sejam apenas especulações. Juntando as informações coletadas pela senhora Oliver, muito amiga do investigador belga Poirot, com as suas próprias investigações, chega-se a uma conclusão nada convencional.

O interessante de se ler Agatha Christie é que não há nada irrelevante nos detalhes no decorrer da obra. Tudo é milimetricamente calculado pela autora e todos os detalhes acabam se encaixando no final da história. Com a maestria de uma experiente autora de romance policial, o leitor pode contar com uma história bem interessante e com mais um mistério resolvido por um dos investigadores mais famosos do mundo.

Título: Os elefantes não esquecem
Autor: Agatha Christie
Gênero: Romance policial
Editora: Coleção Pocket da L&PM
Páginas: 248