quinta-feira, 2 de março de 2017

Conheça a arte quase perdida dos restauradores de livros

Kirk Johnson, 
The New York Times (POR ESTADÃO)*

Às vezes um livro recebe tanto amor que se desintegra. Uma Bíblia ou uma cópia de O Menino do Dedo Verde, por exemplo, só podem ser abertas um certo número de vezes – mesmo nas mãos dos leitores mais gentis – antes que a lombada fique fraca e se desmanche.

O restaurador Donald Vass
(foto: Ruth Fremson/The New York Times)
Mas aqui vai um segredinho: as bibliotecas públicas, apesar de sua paixão silenciosa pela palavra escrita, são ambientes inóspitos. Máquinas que organizam livros automaticamente, esteiras que levam as publicações de um lado para o outro e as caixas de devolução podem machucar os livros e diminuir sua vida útil.

Donald Vass, que passou 26 anos remendando livros no Sistema de Bibliotecas do Condado de King, na região de Seattle (EUA), viu todos os tipos de danos causados por seres humanos, máquinas e o que mais pudermos imaginar. Aos 57 anos de idade e se aproximando cada vez mais da aposentadoria, ele acredita que será o último encadernador tradicional em tempo integral a pegar a agulha, a linha e os pincéis na cidade. Essa é uma habilidade que exige muitos anos de prática, afirmou, e ninguém está sendo treinado para substituí-lo “na restauração”, a Sala 111 no centro de serviços da biblioteca, onde há poucos anos trabalhava uma equipe de 10 pessoas.

Sua arte é antiga e, em muitos sistemas de bibliotecas públicas, está em vias de desaparecer. O choque é especialmente grande em Issaquah, que fica em uma região onde a Amazon reinventou o setor editorial e está à frente de um boom de novas tecnologias. A Biblioteca Central de Seattle ficou pronta em 2004 e localiza-se em um prédio ultramoderno. Engenheiros de software, muitas vezes ainda com os cartões de identificação de suas empresas pendurados no pescoço, enchem os cafés e bares do local.

Vass afirma que levou 15 anos para aprender as habilidades necessárias para restaurar livros: como identificar seus problemas, quais partes podem ser remendadas e quais devem ser deixadas como estão, além de como esconder as evidências de um reparo. Ele utiliza seringas para injetar pasta de trigo nos cantos das capas duras para deixá-las mais firmes, prendendo as páginas em uma prensa até o adesivo secar.

Ele fala dos livros que restaurou – de 60 a 80 por mês – como se fossem crianças prestes a cair em um mundo perigoso e imprevisível.

“Muitas vezes reluto em enviá-los ao mundo, porque sei o que eles vão enfrentar”, afirmou Vass, um homem de fala mansa que se acostumou a trabalhar sozinho.
As salas de restauração, apelidadas de hospitais de livros, já foram uma parte comum de bibliotecas públicas em todo o país. Contudo, a revolução digital, pressões para controlar custos e mudanças nos hábitos dos leitores levaram muitas delas a deixar de lado os exemplares impressos e a manutenção de velhos clássicos. Através da internet é cada vez mais fácil achar livros usados pra substituir os que estão velhos demais, além de conseguir empréstimos por meio de sistemas interbibliotecas.

“Já não consertamos mais os livros, essa é uma arte perdida. Era uma questão do que poderíamos abrir mão, além de que a tecnologia está tomando conta de muita coisa”, afirmou Alan Hall, diretor da biblioteca pública dos condados de Steubenville e Jefferson, em Ohio, nos últimos 33 anos.

Até mesmo a palavra emendar está desaparecendo, afirmam os bibliotecários. O termo é “conservação”, quando se trata de um trabalho altamente especializado, ensinado em cursos de graduação em lugares como a Universidade de Nova York e a Universidade de Delaware. Quem se forma nessas faculdades encontra trabalho em arquivos do governo, centros de pesquisa nas universidades e em alguns sistemas de bibliotecas públicas com mais recursos econômicos, como a Biblioteca Pública de Nova York, além de lojas de arte que dão vida nova àquela velha cópia de Grandes Esperanças que pertencia a sua avó, pela bagatela de US$ 500 por hora de trabalho.

“Os serviços de conservação passaram por um processo de profissionalização”, afirmou Stephanie Lamson, diretora de serviços de preservação das Bibliotecas da Universidade de Washington. Agora a tecnologia tem um papel ainda mais importante, substituindo algumas das tradições de restauração de livros que se baseavam no aprendizado e na prática.

“É um curso muito interdisciplinar, envolvendo uma ampla gama de técnicas, desde a microscopia até as imagens digitais”, afirmou Stephanie por e-mail.

Os livros estão em transformação há ainda mais tempo, afirmou Vass, a partir do início do século 19, com o aumento da alfabetização e o surgimento de um mercado de massa – a era dos folhetins –, que levou a uma transição da encadernação tradicional para o uso de colas muito mais baratas.

Porém, essas colas antigas eram bombas relógio ácidas que consumiam os livros vivos, afirmou Vass. “As pessoas que fizeram essa primeira encadernação com cola têm muita culpa no cartório”.

Vass, que começou a restaurar livros depois de se formar como artista plástico e pintor, afirmou que sua oficina praticamente não conta com ferramentas modernas e também não precisa de nada disso. “Computadores não servem para nada aqui – só para atrapalhar o trabalho”, afirmou.

Sua máquina predileta é uma chapa de corte feita de ferro fundido e que antes servia para cortar caixas de papelão em uma fábrica de doces. Fabricada no início do século 20, a chapa corta as capas de reposição com precisão milimétrica. Ele a comprou em um leilão, coberta de sujeira e poeira, por US$ 50 e a restaurou.

O único intruso tecnológico permitido na sala é o controle remoto do aparelho de CDs que fica sobre a bancada. Mas as músicas que saem das duas caixinhas de som penduradas sobre a porta também não estão em consonância com o mundo moderno.

Vass gosta de música medieval e do Renascimento, e escuta peças etéreas para coral escritas por compositores como Christopher Tye, que viveu na Inglaterra do século 16, ou Jehan de Lescurel, poeta e compositor francês do século 15, criando o que Vass afirma ser uma “harmonia perfeita” com seu trabalho. A obra de Johann Sebastian Bach, que compunha no século 18, é uma das raras exceções ao Top 40 de Vass, que prefere obras compostas entre o século 13 e 16.

“Para mim, Bach é praticamente moderno”, afirmou Vass com um sorriso no rosto.
O amor pelos livros é visível em toda a sala – assim como o desejo de protegê-los do tratamento brutal do mundo exterior. Os danos causados pelas máquinas organizadoras, por exemplo, levou Vass a criar capas de papelão para os livros reparados, servindo como uma espécie de armadura.

Os frequentadores da biblioteca, preocupados com o estado se seus livros, ou tristes pelos danos causados a algum volume – que muitas vezes guardam desde a infância – procuram Vass e pedem ajuda. Quando o tempo permite, ele conserta os livros sem cobrar nada por isso, considerando-os projetos paralelos nos quais tem a oportunidade de aperfeiçoar suas habilidades.

Às vezes as palavras saltam dos volumes em que trabalha, na voz de um autor que geralmente morreu há muitos anos. Uma dessas citações ocupa um espaço central em sua mesa de trabalho: “Qualquer que seja a dificuldade, encontro seu sentido e ela deixará de ser uma dificuldade”.

Ele não se lembra mais de onde a tirou, nem quem é o autor, mas sabe que o livro continua por aí, restaurado e pronto para sobreviver a mais um dia.


*Extraído de http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,conheca-a-arte-quase-perdida-dos-restauradores-de-livros,70001680722